Há mais ou menos um mês eu voltei a instalar o Tinder sem muitas pretensões, como das outras vezes, e sai julgando os outros pelas suas fotos, bios e a música que colocavam no perfil, quando existia uma. Algumas vezes eu dou like sabendo que dará match. Eu sei o tipo de cara que se atrai por mim e isso aconteceu mais uma vez, com um que no aplicativo constava estar a menos de um quilômetro de mim.

Ele me atraiu de imediato. Nas fotos ele aparentava ser alto(o que de fato é) e delicado, ou, talvez, um pouco afeminado(o que é essencial para eu achar um homem bonito); na bio ele tinha escrito algo que não me lembro, mas que quando li me chamou atenção e ele ainda tinha posto uma música da Lorde no perfil, que é uma cantora que não é muito interessante para mim mas que considero similar a algumas coisas que eu gosto de ouvir. Com a mensagem de match na tela, prontamente já mandei o “oi”.

Realmente morávamos no mesmo bairro, realmente tínhamos gostos culturais em comum e realmente estávamos nos interessando um pelo outro. Conversamos durante algumas semanas todos os dias religiosamente e nosso encontro foi sendo adiado devido aos nossos horários não baterem – trabalhamos e estudamos muito. Até que em um domingo à noite, quando ambos estávamos livres de obrigações, ele me chamou para ir até o seu apartamento para assistirmos a algum filme de Yorgos Lanthimos juntos.

Eu sabia que íamos transar e por isso quando aceitei o convite fui checar se ainda tinha preservativo na minha carteira. Como moramos no mesmo bairro e ele não é perigoso, fui a pé. O prédio dele é muito próximo da minha casa, reparei no porcelanato do corredor e também nos abajures com luzes que acredito serem de LED. Já no apartamento dele, trocamos algumas palavras e já começamos a nos beijar.

Não sei se ele fez uma playlist para aquela ocasião, mas me lembro perfeitamente de despi-lo enquanto tocava Malamente da Rosalía, e também dele me chupando enquanto tocava Tyrant da Kali Uchis. Parecia que já tínhamos intimidade, o sexo foi ótimo, muito mais interessante que outras experiências casuais que já tive. Depois, mesmo eu morando a duas quadras, me disse para eu dormir com ele. E assim o fiz.

Meu mapa astral trabalha de forma conjunta para fazer com que eu me apaixone ao receber o mínimo sinal de afeto, mas nesse caso eu ficaria feliz se ele e eu fôssemos apenas amigos. Eu sou novo em Belo Horizonte, conheço poucas pessoas e ele e eu, além de morarmos no mesmo bairro, também possuímos algumas coisas em comum.

Na segunda-feira à noite após chegar do trabalho decidi enviar um “Gostei de te conhecer. Você vai fazer alguma coisa na sexta?”. Isso foi há cinco dias e não obtive resposta até então.

Lembro-me que antes eu ficava super ansioso quando ia a um encontro, ao passo que hoje vou a um como se estivesse indo à padaria comprar pão de manhã.

Normal. Não que eu seja ruim de cama, que eu seja feio ou chato. É um ciclo. Lembro-me que antes eu ficava super ansioso quando ia a um encontro, ao passo que hoje vou a um como se estivesse indo à padaria comprar pão de manhã. Eu sei todo o roteiro, sei que vamos transar, depois talvez nos esforçar para continuar conversando e por fim cada um acaba indo buscar outros corpos. 

Arrisco a dizer que isso acontece com todos, acredito que se relacionar nessa era digital é cada vez mais difícil porque tudo é muito rápido. O Tinder é um cardápio humano pronto para ser apreciado, o Grindr é um amontoado de homens com a libido de quatro Tove Los e o Scruff eu não sei, aí já é demais para mim. Gays antes de serem gays são homens e homens, por algum motivo que não quero analisar nesse texto, são hipersexuais. Com tanta oferta de sexo, por quê se contentar em transar apenas com um?

Isso é uma crítica a mim mesmo também. Por mais que algumas vezes eu sinta vontade de conhecer o cara, na maior parte do tempo eu só quero sexo. Às vezes vou transar já sabendo que será ruim. E incontáveis vezes também dei vácuo no dia seguinte. Parece ser um comportamento coletivo, alguém mais qualificado pode dissertar sobre? Eu sou de exatas.

Penso que isso seja triste e um desperdício de tempo. Por mais que gozar seja bom, se relacionar além disso é muito interessante. Não digo como alguém ressentido, eu não falo da sociedade ou da comunidade LGBT me excluindo dela. Falo como alguém que tem curiosidade em saber como é passar para a fase seguinte. Mesmo que isso seja piegas, que venha muita gente me dizendo que posso ser feliz sozinho fazendo sexo casual três vezes por semana, ou que posso tentar o tal do relacionamento aberto. Acaba que tudo volta a ser resumido a sexo e a incapacidade de se conectar afetivamente com quem quer que seja.

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Posted by:HERNANDES

Formado em Engenharia Civil e graduando em Administração de Empresas, sou ótimo com números, mas também tenho afinidade com palavras.

3 respostas para ‘Quando o sexo é dado em abundância

  1. Amo mto Yorgos Lanthimos. Esse rapaz tem bom gosto hahaha!
    Eu sou a última pessoa na Terra com experiência pra dar pitaco sobre o assunto, mas senti necessidade de comentar. Eu acho que isso é a boa e velha modernidade líquida. O imediatismo, a descartabilidade, a indiferença que as pessoas aprendem à medida que vão se magoando com as relações… O ser humano se adapta às situações e acho que é isso o que aconteceu com você e com esse outro moço da história.

    Agora um desabafo, se me permite… Eu não sei praticar sexo casual. Já tentei algumas vezes e foi horrível. Em todas as vezes o sexo foi ruim, porém por alguma razão eu quis continuar saindo com a pessoa na esperança de obter algum afeto, quem sabe até um relacionamento sério. Acho que faço isso porque o sexo não é bom, então meu cérebro tenta se apegar a outras coisas para fazer a experiência valer a pena pra mim.
    No fim das contas, em todos os casos, me senti usada sem ter nada de interessante em troca. O máximo que recebia eram migalhas de afeto. Então decidi que nunca mais me arriscarei no sexo casual. Agora passo meus dias sozinha, contando apenas com a masturbação para saciar meus desejos sexuais. E o afeto e amor que eu tanto quero parecem cada dia mais distantes. Não consigo me adaptar à modernidade líquida.

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  2. Primeiro, gostaria de ressaltar que a leitura desse texto é muito fácil, não estou me referindo que o assunto seja fácil, mas sim, ao modo como você escreve. Me faz lembrar de dois livros que li recentemente, de autores franceses “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, do filósofo Rousseau, e um outro intitulado, “A Nausea”, de Sartre,. São livros que tratam de assuntos complexos, mas de uma forma aconchegante, você lê e não consegue parar. Por favor, tenha isso como um elogio.

    Segundo, dificilmente eu vou opinar sobre qualquer assunto sem envolver a filosofia. E após a leitura desse maravilhoso relato, eu começo citando um filósofo grego chamado Epicuro, que traz a tona a “corrupção do prazer”. Epicuro é um pensador grego marginal. E porque marginal? Porque foi excluído do projeto socrático,
    porque não é platônico, porque não é apologético da alma frente ao corpo, e porque estava absolutamente convencido que o que esta por trás da vida homem é o prazer. Em outras palavras, ele defendia que o homem é regido pela lógica do prazer. Se você preferir, para Epicuro, tudo o que fazemos, e que aparentemente tem explicações super complicadas, na verdade, há uma explicação que nem sempre é percebida. “A busca pelo prazer, e a eliminação da dor, e do medo da morte”. Portanto, todos nós buscamos eliminar o sofrimento e o medo da morte, e por essa razão acabamos buscando o prazer.

    Em um de seus escritos nomeado como “Carta a Meneceu”, ele divide os prazeres naturais em prazeres do corpo
    que em grande medida são buscados independentemente do mundo que esta pela frente. Naturalmente que o encontro com uma água fresca é um prazer natural, e o prazer aumenta se nesse caso a água for escassa. E os prazeres não naturais, são aqueles que você não buscaria caso não houvessem a sua volta. O luxo é um ótimo exemplo (é o prazer que te move, mas que te move exclusivamente em função da circunstancia episódica de um encontro). É um prazer socialmente definido, falando contemporaneamente, ou ainda, socialmente imposto, empurrado goela abaixo… E o que deve estar por trás da existência é a busca pelo prazer essencial e natural, portanto é preciso comer o necessário e ter prazer nessa medida, é preciso beber o necessário e ter prazer nessa medida. Mas dai aquela voz do inconsciente fica repetindo incansavelmente frases como; eu não sinto tanto prazer em beber água, a não ser quando eu estou com sede, eu não sinto prazer em comer a não ser quando me da fome, ou ainda, eu não sinto tanto prazer em fazer xixi, a não ser quando eu estou apurado/apertado.

    Epicuro responde que é porque nós já fomos estragados. Fomos estragados pelo prazer supérfluo, prazeres exagerados, prazeres alargadores e deformantes do corpo e da alma, que quando me é apresentado o simples, eu não possuo mais a sutileza. É por não termos vividos até aqui sobre os prazeres naturais que não possuímos mais prazer em um copo de água gelado ou em uma boa respirada de ar puro. Excesso é a palavra chave, agora falando em sexo; fomos corrompidos pelo excesso, mulheres, bundas enormes, pau grande e não sei mais o que, que na hora que você se depara com uma coisa necessária, é normal que você se entusiasme menos. a corrupção por filmes estimulantes que tem 200 pessoas trepando, pau de todas as cores e tamanhos, que na hora que vamos fazer o necessário preferimos deixar para amanhã.

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  3. Esse ano eu inventei de sair com vários caras. E é bem assim. No meu caso, eu quebrei a cara várias vezes, porque me apego demais! Eu adorei que você enfatizou “Gays antes de serem gays são homens e homens, por algum motivo que não quero analisar nesse texto, são hipersexuais. Com tanta oferta de sexo, por quê se contentar em transar apenas com um?”. Tenho amigos gays que passam por isso que você passa e eu nunca parei para pensar nesse contexto! Muito bem avaliado!

    Ah, eu estou apaixonada pelos seus textos! Amei demais!!!

    Curtido por 1 pessoa

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