Sigmund Freud, em seu clássico ‘Luto e Melancolia’, define essa segunda como sendo um estado de desânimo, ausente de vontade de realizar tarefas, incapaz de transformar o querer em ação e de uma densa baixa autoestima. O pai da psicanálise diz que as características da melancolia se assemelham ao luto, embora o melancólico não tenha perdido alguém.

Vários filósofos, entre eles Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard, falaram sobre a melancolia. Machado de Assis, um baita melancólico, representou esse estado de espírito mais explicitamente em ‘O Alienista’. Lars von Trier fez um filme angustiante sobre o tema. Albrecht Dürer até intitulou sua principal obra de ‘Melencolia I’. Márcia Tiburi diz que o melancólico se encontra perdido em um mundo cheio e muitas vezes precisa transcender de alguma forma para sentir um mínimo de conforto.

A melancolia é meu afeto político favorito. Sempre me senti vazio, perdido e infeliz até quando tudo estava bem. Como gosto de entender meus afetos, fiz uma empreitada buscando respostas do porquê eu ser assim, do porquê eu sentir isso, e também o porquê eu não sentir nada. Tenho o hábito de contextualizar tudo, não que toda filosofia tenha obrigação de ser prática, mas tento identificar a teoria em mim mesmo.

Eu amo um homem há meses. Tudo o que eu faço é pensando nele, desde escolher uma roupa para sair até ir ao supermercado comprar suco de caixinha. Fora os textos que eu publiquei aqui, devo ter outros trinta no meu computador, todos sobre ele. Sobre a sua voz, sobre suas mãos, sobre o seu cabelo, sobre a sua barba, sobre as suas tatuagens, sobre suas roupas, sobre o jeito que ele se expressa.

Estou acostumado a sofrer por ele. Estou tão acostumado a estar nesse estado de melancolia que quando sinto a alegria, me assusto. É algo estranho, acho que sou viciado na dor. Não consigo nos imaginar juntos, mas parece que sinto a necessidade de ficar remoendo e remoendo nosso fim mal acabado. Nunca mais enviei uma mensagem sequer pedindo para vê-lo, embora ele sempre apareça me assombrando, mas ainda assim ele é o principal assunto da minha vida.

Tenho um histórico de autoestima baixa num nível que beira à calamidade. Sempre achei o estado de doença muito mais complexo que a convenção da saúde. Quando escrevo me sinto alguém interessante, pelo menos na minha visão. Acho que penso igual às pessoas do Renascimento que acreditavam que a melancolia era uma coisa bela.

Sua ausência, antes muito dolorida, parece ter se tornado a ponte que me leva para o transcendental. Alguém pode me dizer se isso faz sentido? De certa forma, encontrei nele a minha inspiração. Ele se tornou meu ‘muso’. Às vezes eu me esforço para ficar triste para, assim, escrever. Claro que não é só isso, eu ainda gosto dele, apesar de todos os contras, mas eu me sinto lindo sofrendo por sua causa. Me sinto em um filme iraniano onde nada vai a lugar nenhum.

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Posted by:HERNANDES

Meu corpo conta uma história da qual ninguém conhece.

2 replies on “O confortável estado de melancolia

  1. “Quando escrevo me sinto alguém interessante, pelo menos na minha visão.”

    É exatamente meu caso! Escrever é uma forma de expressão que faz eu me sentir menos insignificante. Penso que pelo menos sei transformar minha dor em arte – arte essa que alguns poucos leitores vão apreciar.
    Seus textos sobre melancolia falam diretamente comigo. Também já escrevi sobre isso. É como você diz: parece que nos viciamos em sentir tristeza. É um estado estranho de torpor, difícil de explicar.

    Curtido por 1 pessoa

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