“Melencolia I” é a principal gravura do mestre renascentista Albrecht Dürer. É uma obra que foi/é tão estudada que chega ao nível da vulgarização. Nela, um anjo, supostamente do sexo feminino, está sentado, segurando um compasso com a mão direita e apoiando o rosto com a esquerda, rodeado de vários elementos colocados ali de forma consciente, mira o olhar para fora do nosso plano de visão, muito provavelmente para o vazio.

Na cena, encontram-se ao redor do anjo um cachorro raquítico, uma bola, um poliedro, uma bolsa de ferramentas, um sino, uma escada, uma balança, uma igreja ao fundo e um morcego vindo de um arco-íris segurando os dizeres “Melencolia I”.

O personagem principal aparenta estar entediado. O anjo não dá atenção nem para a atividade que está executando com o compasso, nem para qualquer coisa que está a sua volta. Ele poderia brincar com o cachorro raquítico que se encontra em estado deprimente, poderia esculpir o poliedro, poderia jogar bola, poderia capturar o morcego e estudá-lo, enfim, poderia fazer diversas coisas naquela cena, mas ele simplesmente não faz nada. Encontra-se completamente perdido em um mundo cheio. Essa é a característica do melancólico.

Em uma quantidade agressiva de vezes eu me sinto o anjo da gravura de Dürer. Exatamente como ele, me encontro perdido. Não sinto vontade de fazer coisa alguma, o que me era interessante já perdeu toda a magia e não consigo mais sentir o prazer do devir. Ao mesmo tempo que gostaria de ficar quieto em um canto, fico agitado e ansioso. Entre tantas coisas a se fazer, não faço nada.

A morte de Deus e a posterior perda do sentido da vida sempre me abalou, mas não em doses tão venenosas. Está sendo difícil viver. Não vejo razão em continuar a existir pois a vida vem se tornando apenas dor. A dor é intrínseca à vida. Posso dizer que não há dor pior do que a dor de existir.

Essa angústia me acompanha por qualquer espaço físico. A dor não está no ambiente, e sim em mim. A dor parte de mim. Sinto que isso tudo é fruto da minha vontade irracional, cega e insaciável que pede algo que eu não conheço ou que eu não posso dar. Seria um amor? seria um bom emprego? seria me dedicar mais à filosofia? Me encontro impotente.

Fato é que meus desejos afetivos, profissionais e intelectuais me corrompem até as vísceras. Eu preciso de pouco, mas o básico para a alegria ainda me falta. Enquanto isso fico flutuando, preso a amarras apertadas, que esticam mas não me soltam. Um dia alegria, um dia sofrimento. Vazio sempre.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.