Na segunda-feira eu voltei da terapia como um paciente que recebeu alta depois de um longo tempo de internação. Já se completaram quatro meses desde que recorri à ajuda técnica após uma tragédia metafísica que colocou minhas faculdades mentais em rota de colisão frontal.

É muito recente o passado de uma dor inédita que se arrastou por todos os lugares como uma sombra que me acompanhava. Era a dor da perda, do luto, ou, não exagerando, a dor do fim do mundo. Olhando para o céu o sentimento era nada menos que descrença, decepção e uma percepção de que o meu poço não tinha fundo, pois a angústia era tão apocalíptica a ponto de não enxergar nenhuma luz em pleno breu que, sem piedade, se instaurava.

Aprendi a viver com a dor. A vida nos presenteia com um pacote em que dentro estão o sofrimento e o gozo juntos. Correr do sofrimento não é sábio, já que ele faz parte da experiência, ao passo que o gozo não existiria sem ele, pois é necessário um parâmetro de comparação. Como saber o que é bom sem saber o que é ruim?

Correndo risco de romantizar a tragédia, sofrer não parece de todo mal. Há mais coisas interessantes no sofrimento do que na alegria. Me instiga à especulação, a tentar entender o que eu estou sentindo, qual a razão e se isso tudo no final será frutífero. E foi. Ninguém que não sofra consegue conhecer a si mesmo.

O amor enquanto afeto não passa de uma vontade. É cega, surda e muda. Se não for um amor socrático, é apenas um escárnio que te leva ao abismo. Pau e bunda é pouco para mim. Eu mereço mais, por isso insistir na dor por quem não pode me oferecer o que me é essencial é simplesmente incoerente.

Antes a minha presença por si só era insuportável. Eu implorava pela companhia dos meus amigos, roubando suas solidões necessárias e em troca os presenteando com a morte em pessoa. O que eu falava era o mesmo sem fim, um eterno retorno em tempo instantâneo de não aceitação e autoflagelação psíquica.

Eu tomava vários banhos durante o dia pois sentia nojo do meu cheiro de cadáver. Minha permanência no banheiro era demorada, pois ao som de “Sozinho” do Caetano Veloso eu sentia o fim se aproximando e a dor sem raiva nem rancor atrofiando os meus sentidos. Ficava em inércia, em posição constrangedora, enquanto a água do chuveiro batia nas minhas costas.

Vivia um contraponto entre querer sair de casa e não me sentir confortável em lugar algum. Eu era frágil em qualquer espaço físico, atento a todo momento a um aparecimento inesperado, espírito de Alice inacabado, apenas um afeto que amenizasse a minha dor. Não aceitava o que tinha acontecido, era dramatúrgico demais para a minha vida lenta que anda com a velocidade de um cágado.

Mas depois de muita resistência, ficar sozinho voltou a ser prazeroso. É simplesmente o meu momento de criação. Minha inspiração floresce no meu quarto onde estou apenas eu junto à minha solidão silenciosa e estimulante.

Já não vejo mais morte em lugares aleatórios. Minha capacidade de contemplação e concentração retornou em doses gigantescas nas quais eu não tinha provado antes. Minha sensibilidade que antes já tinha uma vazão considerável, agora é capaz de fazer afogar.

O prazer em conhecer pessoas fez o seu retorno. Existem pessoas que veem nas outras apenas seres com orifícios e existem pessoas que veem nas outras possibilidades incríveis de conhecimento. Eu sempre fiz parte do segundo grupo. Há quem entra na minha vida para me inspirar e há quem entra na minha vida para me fazer conhecer o que eu não quero me tornar. Gosto de provar os dois lados dessas existências.

Eu passei por todo o sofrimento schopenhauriano, mas não permaneci. Na dor é possível parar, mas não estacionar. Ela não representa a vida em sua totalidade e deve ser transformada em combustível para a vontade de potência.

Amadureci muito e me mudei, sem perder minha identidade, fisicamente e intelectualmente. Talvez seja cedo para dizer, mas a maior decepção que já tive parece ter me levado ao encontro do maior amor.

Sinto que eu dei adeus à doença e ingressei de volta à saúde, muito mais belo, interessante e inspirador. Porque na minha história de vida ele morreu. E eu sobrevivi.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

6 replies on “O abandono da doença e o ingresso de volta à saúde

    1. Waldir DE Mesquita FE EM QUEM FE NADA DE FE PARA QUEM NAO TEM FE NADA REPRESENTE ESTA FE QUE VOU FALAR AGORA FE COM FE LER COM FE O PRIMEIRO LIVRO DE ROMANOS DA SANTA BIBLIA SAGRADA IDOLATRIA E DEPRAVAÇAO DOS HOMENS QUANDO VOCE LER COM FE VOCE VAI ENTENDER PORQUE VOCE TEM TENDENCIA DE HOMOSEXUALISMO E PORQUE QUEM NAO TEM FE SOBRA PARA OS SEUS FILHOS

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