Pela primeira vez em muito tempo eu entro no banheiro para tomar banho sem música. Estou com a necessidade de ouvir o silêncio do ambiente e o poder dos sons dos meus movimentos por cima dele. Tiro minha roupa e, nu, tenho coragem suficiente para olhar para o espelho e ser bombardeado pela minha própria imagem.

Durante todo o devir, o tempo riscou meu rosto com uma navalha fina. Sem raiva, nem rancor. O tempo riscou meu rosto com calma. As cicatrizes não estão na minha pele, mas podem ser percebidas pelo jeito que interajo com o mundo. São marcas grossas e escuras, cada uma com sua história, mas todas sobre sofrimento.

O corpo no espelho é esguio, muito alto, de certa forma esbelto. É um belo corpo. De cima para baixo, a cabeça raspada por opção própria entra em harmonia com a face de expressões muito marcadas. Meu nariz é lindo, minha boca também. Os olhos são pequenos, as sobrancelhas são finas naturalmente desenhadas. O peitoral magro praticamente sem pelos transmite vulnerabilidade e faz eu me lembrar que ainda sou jovem.

No antebraço esquerdo eu carrego uma frase de Nietzsche que me assalta toda vez que a leio. No ombro direito, um símbolo que me representa com seus traços que propagam sensibilidade. Meus braços, muitas vezes usados como instrumento de trabalho árduo, muitas vezes usados como instrumento de prazer mútuo, vão ao encontro das minhas mãos nada agressivas que carregam diferentes afetos.

O ponto alto da minha masculinidade em sua forma flácida também possui certa beleza. Minhas pernas, essas que já me levaram a tantos lugares que agregaram à minha experiência de vida, apresentam pelos lisos por toda a extensão, até chegar aos pés, sobreviventes de tantos calos que sem piedade já os habitaram.

Esteticamente eu sou um homem lindo que, fardado com o vestuário que eu mesmo produzo, é capaz de intimidar quem pouco se conhece. Sou diferente ao mesmo tempo que sou comum. Dizem que tenho uma aparência exótica, ou cigana, ou até transgressora. São vários adjetivos, mas não é o físico o principal mecanismo que utilizo para me fazer presente no meio das massas.

A minha intelectualidade é uma resposta a um mundo que esperava que eu sucumbisse à ignorância e me contentasse com migalhas. Falando de onde venho, citando as minhas origens, o mais provável é que eu fosse um miserável que não conhece sequer o que está a sua volta. Minha existência é, por si só, combativa.

Eu sou melancólico pois vejo o mundo como ele é. Me interesso muito por filosofia e me identifico com os filósofos considerados pessimistas, como o próprio Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard. Estou sempre questionando a vida, a moral, o bem e o mal, e tudo o que me causa especulação.

A empatia que carrego é muito notável. Prefiro sofrer a fazer sofrer. A existência por si só é sofrimento, não acho justo que eu intensifique a dor de alguém. Portanto, piso em ovos nos meus relacionamentos e tento ser gentil ao máximo. Eu posso ser alguém bom, não há motivos para ser ruim.

Me emociono fácil. O nascimento de um bebê, a chuva que cai depois de semanas de um sol agressivo, o canto de um coro de igreja, para mim são milagres. Não preciso pular de bungee jump ou de paraquedas para me sentir vivo, muito menos ingerir álcool para me sentir confortável comigo mesmo. A vida parte de mim e ela eu compartilho, sem vergonha, com quem está à minha volta.

Possuo intimidade com a estética. Sei apreciar obras de Michelangelo a Courbet, pois entendo que a arte é a representação do mundo na sua forma sensível, passível de admiração, até mesmo visto uma tragédia, só que por outro ângulo.

Meu corpo não se contenta apenas com comida, água ou sexo. Ele tem fome, sede e vontade de metafísica. A subjetividade é o que me sacia. Encontro refúgio na dança, um reduto na música, um abrigo no cinema e um escapismo na literatura.

A navalha do tempo esculpiu meu eu. Parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instantes e acho que ganhei presença. Aceitei o que foi me dado. Sinto que transformei tudo em potência.

Me vendo assim, percebo que eu posso oferecer muito, mas não sei a quem. Na verdade, eu sou meu maior presente. Neste exato momento sinto que eu me mereço.

Texto muito inspirado na poesia “Vida/Tempo” de Viviane Mosé.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.

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