Minha vida tem seguido uma frenesi nos últimos anos. Eu me ocupei com o trabalho, com a faculdade, com a arte, com a filosofia e com meus amigos, mas, ainda assim, em vários momentos que se dão de forma aleatória, não há como esquecer e vira e mexe eu me lembro de um estado que me acompanhou durante quase toda a totalidade da minha existência: a solidão.

Assunto mais que falado por mim, debatido à exaustão, a solidão parece ter pauta sem fim na minha vida. Quando estou perto de pessoas que gosto, não consigo evitar comparar o sentimento de hoje com o sentimento de quando eu estava só. É de um contraste tão grande que não poderia me levar a mais nada senão ao choro.

É muito comum sentir medo da nossa própria presença. Quando estamos em casa sozinhos, ligamos a televisão ou colocamos música, tudo para que não possamos escutar nossas mentes inquietantes que nos questionam sempre que podem. Passando por um espelho sozinho, quem tem coragem de olhar diretamente para ele e ser massacrado por seu reflexo pode ser tido como um homem superior.

Segundo Nietzsche em sua obra magnífica “A Gaia Ciência”, “para um homem devoto não existe solidão – esta invenção foi feita somente por nós, os sem-Deus”. Sim, pois um cristão nunca está sozinho: esse é sempre acompanhado pelo Pai metafísico que por ele olha e cuida. Já para nós, o que nos resta é nossa imagem que nos cega e nossos sons que nos ensurdece, num estado psicológico que grita socorro.

A imagem da solidão pra mim foi sempre violenta. Eu não conseguia ver algo de positivo em ficar completamente isolado, privado de algo que hoje eu preso tanto, que são os afetos. Numa onda de mal-estar avassaladora que me atingiu por volta de fevereiro, não fiz outra coisa senão pesquisar algo que eu pudesse ler e me trazer conforto.

O já citado Nietzsche é muitas vezes referido como “o filósofo da solidão”, pois ele viveu esse estado no sentido mais forte de seu significado, mas, diferente de nós, Nietzsche via no isolamento um ensinamento do espírito livre, onde esse usufrui da sua própria companhia e se sente em casa quando está consigo mesmo.

Perdidos no meio da multidão, inevitavelmente cedemos ao fluxo coletivo e marginalizamos nossa singularidade. É nesse ponto que a solidão é importante, no campo do autoconhecimento, para não se perder no meio das massas e manter nossa subjetividade. Ficar sozinho é uma forma de abaixar as máscaras que usamos em público e levantarmos nosso próprio eu, criando o que nos diferencia dos demais.

Mas Nietzsche não fala da solidão na forma de se isolar completamente do mundo. Não é se trancar no quarto e parar no tempo enquanto tudo a sua volta evolui. A solidão deve ser tida apenas como um afastamento para ter um campo de visão maior, de si e do mundo, porque é fácil tomar decisões erradas estando cercado de influências externas.

A sociedade tende a discriminar o solitário. Não passa uma imagem boa aquele que troca uma festa para ficar em casa sem nenhum programa aparente. O solitário, na verdade, transmite periculosidade porque é alguém que foge do fluxo das multidões e essas mesmas multidões não gostam dos diferentes.

As pessoas mais interessantes do mundo se fizeram na solidão, porque esse tem um princípio de sofrimento e usando de outra teoria nietzscheana, o sofrimento leva à vontade de potência. O mundo é comandado por pessoas solitárias que aprenderam a apreciar a si mesmo, como eu estou fazendo agora.

Muito provavelmente eu não seria assim sem a solidão. Eu sequer escreveria dessa forma.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.

One thought on “A solidão nietzscheana

  1. Nietzsche acreditava que para elaborar uma boa filosofia era necessário afastar-se da manada. Não seria possível pensar, matéria prima do filósofo, com tanto barulho ao redor. De outro lado também temos os grandes artistas e escritores que viveram amargurados pela solidão, o vício ou a loucura. Parecem ideias sedutoras, mas há tantos outros exemplos de biografias espetaculares que não se isolaram do mundo; ao contrário, abraçaram-no com toda a força. No fundo, tragédia e comédia podem ambas conduzir à fama e ao estado da arte. Como pensam os orientais: nada muda, somente nossa mente. Abraços!

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