Era a primeira vez que eu ia à casa de uma amiga. Ela mora numa rua bonita, num bairro muito bom. A maioria das casas tem um recuo de no mínimo um metro e meio da calçada, possuem muros que, embora antigos, são bonitos e imponentes. O terreno é regular, não há qualquer inclinação. Ela mora bem com seu pai e sua mãe. Chegando em sua casa, me senti constrangido: ela simplesmente fez um tour pela casa, me mostrando cada cômodo, como se fosse uma corretora de imóveis.

Muito provavelmente, ela me acha um sem-teto. Ou que pelo menos eu moro num barraco, o que está bem longe de ser verdade. Ela mora numa casa boa, numa rua bonita e num bairro bom, porém de aluguel. E age como se fosse rica. Naquele episódio, me senti constrangido não por mim, mas por ela ter feito algo ridículo. Eu senti pena. Eu e minha família possuímos duas casas próprias e um terreno onde queremos construir mais.

Eu sou muito subestimado. Às vezes sou tratado como idiota, até mesmo por quem estudou a vida inteira em colégios caros, cursou direito e até hoje não sabe usar o “mais” e o “mas”. Elas simplesmente escolheram ser ignorantes. São pessoas que sentem “pena” de mim sem motivo, quando elas deveriam sentir pena delas mesmas. Não esperam muita coisa de mim, mas quando abro a boca elas se mostram chocadas.

Sinto que eu surpreendo muita gente. Talvez por eu vir de uma cidade pequena, por eu ser de uma família de origem rural que trabalhou muito para transformar sua vida de chão erosivo em um solo fértil, pessoas esperam que eu seja um ignorante, um pobre coitado. Já li desde best-sellers a livros complexos de filosofia. Conheço Björk e Sigur Rós, mas também conheço Criolo e MC Carol. Também assisti às obras de Woody Allen, Almodóvar e agora amo Anna Muylaert. Sou politizado e sei dos direitos que me são negados. E ainda cometo o crime de escrever bem. Ninguém me obrigou a nada, tudo o que sei e tenho hoje foi escolha minha. Porque eu nunca pisei em um colégio particular e hoje sou alçado numa ancestralidade que dinheiro não compra.

Sempre que a pessoa for branca e rica, não importa se ela é super simpática e sua amiga, em algum momento seu elitismo vem à tona e ela mostra seus preconceitos, seja pela cor da sua pele, sua condição sexual, sua classe social, suas origens. O elitismo branco não cabe embaixo do tapete.

Mas eu respondo os preconceituosos conseguindo bolsa na faculdade onde eles têm que pagar mensalidade, passando na prova do estágio que eles queriam e “roubando” o emprego que era pra ser deles. Eu sou um homem foda que chegou pra ser desagradável com quem já estava acostumado com seus privilégios.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.

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