O grito de uma mulher que foi ao fim do mundo várias vezes, mas voltou em todas.

Era mais um dia normal no “Calouros em Desfile”, programa da Rádio Tupi apresentado por Ary Barroso, quando subiu ao palco uma menina de 13 anos, mal vestida com uma roupa remendada, cheia de alfinetes e retalhos. Não só pela vestimenta mas também pelo seu jeito humilde de falar, a plateia caiu em gargalhadas, assim como o apresentador, que por fim perguntou à menina: “De que planeta você veio?”.

Sem piscar os olhos, a resposta veio violenta: “Eu venho do planeta fome”.

A plateia se calou com a resposta e Ary Barroso, que até então ria, ficou boquiaberto. Mas a surpresa chegou ao ápice quando a garota começou a cantar “Lama”, tão majestosamente que não teria outro fim senão uma salva de palmas de pé de todas as almas que ali estavam.

A menina em questão era Elza Soares. Filha de uma lavadeira e de um operário, nascida na favela de Moça Bonita e criada no bairro de Água Santa, Rio de Janeiro. Se casou aos doze anos por mando do pai, e aos treze teve seu primeiro filho. Elza participou do programa de calouros porque além de sonhar em cantar, precisava comprar remédios para seu filho recém-nascido.

Ficou viúva aos 21, já com cinco filhos. Aos 32 conheceu Garrincha, o amor da sua vida. O jogador se separou da esposa para amar Elza, o que a fez ser xingada pelo país que a viu como a responsável pelo fim de uma família. Viu de perto a derrocada de Garrincha no alcoolismo: ele estava dirigindo bêbado no acidente que matou sua mãe. O casamento acabou quando Garrincha agrediu Elza, socando seus dentes, pouco antes de uma entrevista na televisão que a cantora iria conceder.

Pouco tempo depois, Garrincha morreu de cirrose no fígado, miserável, esquecido. O fruto da união, Garrinchinha, morreu em outro acidente de carro. Ao todo viu a morte de cinco dos seus filhos e filhas.

Elza é uma figura que representa um mundo de sofrimento sem fim. Mulher, negra e periférica, adjetivos que se sozinhos já atraem o preconceito, somados resultam em uma dor que é preciso força para não se deixar vencer. E isso não falta em Elza.

Agora com 80 anos, seu mais recente álbum e o trigésimo quarto de sua carreira, lançado em outubro de 2015, “A Mulher do Fim do Mundo” ultrapassa as fronteiras do Brasil para conquistar novas terras. Um álbum histórico que alçado no sofrimento de uma mulher que conhece de perto a dor se ramifica empoderando oprimidos e os encorajando a reagir.

A obra é aberta com Elza recitando a magnífica “Coração do Mar” de Oswald de Andrade e segue na mesma faixa com “Mulher do Fim do Mundo”, a música que mais representa Elza, que não se cala diante de quem a agride, que faz-se ouvir. “Maria Da Vila Matilde” chega como hino contra a violência doméstica. Cadê meu celular? eu vou ligar pro 180 mostra de novo uma mulher resistente e firme que chega a reação Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim, versos que grudam na mente do ouvindo. “Luz Vermelha”, “Pra Fuder” e “Benedita” encorpam dignamente o álbum. Aliás, essa última faixa presta homenagem a uma transexual viciada em crack e morta pelo tiro de um policial. “Firmeza” é um poema que nos leva ao cotidiano da periferia. “Dança” é a música que leva um cadáver a se mexer. A triste “O Canal” traz uma narrativa densa e linear que torna enigmática sua letra detentora de uma referência cultural viajante. “Solto / Comigo” fecha o álbum de pouco mais de quarenta minutos e nos faz lembrar da trajetória sofrida de Elza, que mesmo severa a fez ser o que é hoje: uma mulher forte.

O álbum que fez Elza ressurgir das cinzas veio na hora certa: um momento nunca antes visto, onde vozes se fazem ouvir contra o machismo, racismo e LGBTfobia. Após o término de “Solto / Comigo”, a voz de Elza para no player mas continua em nossa mente. É uma mulher que não desiste.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

4 replies on “Vinda do ‘planeta fome’, Elza Soares é eterna

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