Estava arrumando a casa quando encontrei uma caixa de fotografias dentro do guarda-roupas da minha mãe. Com cara de que não era aberta há séculos, a caixa poderia ser considerada quase imaculada, não fossem os desgastes por causa do tempo e das traças que teimam em devorar qualquer coisa em inércia.

Eram vários álbuns, com fotos minhas e dos meus irmãos. Um deles eram as fotografias do meu aniversário de cinco anos, o único comemorado com festa. Eu estava feliz, rodeado de amigos de infância, primos, tios e avós. Não tinha um tema definido, apenas resquícios de que o painel que fica atrás da mesa do bolo tinha um Mickey desenhado.

Eu apareço sorrindo em todas as fotos, coisa que hoje não faço praticamente nunca (preciso deixar de fazer carão e passar a fazer mais carinho). Tinha cabelo consideravelmente grande se comparado à careca brilhante que ostento desde o começo do ano e que não pretendo abandoná-la tão cedo. Roupas que hoje parecem feias, mas que com certeza estavam na moda naquela época, porque, aliás, estamos falando de dezesseis anos atrás.

São retratos de Lúcifer antes da queda. Uma época de falta de conhecimento, portanto de alegria. Clarice Lispector disse que os ignorantes são mais felizes, e Nietzsche que a ignorância é a chave para a felicidade. Penso o mesmo. Quanto mais conhecimento, mais se percebe o quão cruel é o mundo e a quase impossibilidade de transforma-lo. Talvez seja isso o porquê de toda essa idolatria pela infância.

Há dezesseis anos, eu estava de bem com toda minha família. Eu era um garoto normal, educado, tirava boas notas na escola e portador de uma imaginação além do fértil. Hoje é quase um sabonete neutro. Não temos um contato muito íntimo além de almoços e churrascos americanos que fazemos. Claro que eu gostaria de tios mais presentes, avós mais inteirados na minha vida. Mas minha madrinha de batismo não se lembra nem da minha data de aniversário, e meu pai não quis me ensinar a dirigir.

Não converso com nenhum dos amigos que estavam na minha festa. Alguns estudaram comigo no Frei Marcelino. Aliás, essa semana minha turma do ensino médio criou um grupo no WhatsApp e me adicionaram. Estavam marcando um churrasco ou algo do tipo, não li direito, e eu já comecei a imaginar qual a desculpa eu iria dar para não ter que ir. Pensei em falar que estava com hérnia de disco, ou com conjuntivite nos dois olhos, mas como tenho medo de brincar com doença, simplesmente saí do grupo sem a menor preocupação.

Seria estranho e nada confortável sentar numa mesa e conversar com eles, ao mesmo tempo que sujo minha mão com a gordura da carne e acabo com meu intestino bebendo refrigerante. Nós não somos amigos, não temos qualquer intimidade. Sou fã de reciprocidade, e, convenhamos, na escola da vida nós não somos da mesma turma. Não sinto vontade de compartilhar minha vida com eles, nem mesmo ouvir o que eles têm a dizer. Somos completamente estranhos.

Mas quando paro para pensar, a queda de Lúcifer do céu ao inferno foi bom para mim. Eu encontrei minha turma depois dos vinte, a informação me corrompeu e me tornou uma pessoa forte, culta, sensível e foda. Porque eu sou capaz de tudo. Trabalho e estudo muito, e mesmo que não viva uma vida perfeita como era anos atrás camuflado na infância, a vida de hoje é muito mais interessante.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.

2 replies on “Lúcifer antes da queda

  1. É ago tão familiar, sentimentos são similares…
    Talvez não tanto nó aspecto de velhos contatos, mas principalmente na percepção de que com o passar do tempo você vai percebendo quão importante é parar de refletir um pouco sobre a realidade nua e crua.
    Me sinto, “Perdidíssimo”.

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