Não sei se me comovo quando vejo um vídeo sobre aborto, desses compartilhados no Facebook por quem é contra que a mulher possa escolher o que fazer com seu corpo. Aliás, vi um gif hoje compartilhado por uma colega de trabalho bem religiosa na qual mostra, de forma ilustrativa, as etapas do aborto, onde uma pinça vai retirando partes do feto.

Li certa vez que fazer um aborto, para o médico, é mais fácil que desencravar uma unha. O feto não ouve, não fala, não sente dor. Ele simplesmente não sofre.

O aborto é proibido aqui no Brasil, dá cadeia. Mas é proibido e mortal só para quem não pode por ele pagar. Com três mil reais, uma mulher pode fazer um aborto numa clínica bacana, e com uma segurança bem considerável. Quem não tem dinheiro recorre a remédios não confiáveis, a aborteiras que podem ser consideradas verdadeiras carniceiras e, se não encontrar outra forma, é capaz de enfiar uma faca no útero numa tentativa desesperadora de interromper a gestação.

Portanto, correndo o risco de ser presa e até mesmo de morrer, a mulher que opta pelo aborto com certeza tem uma razão para isso. Mas isso ninguém enxerga, nem se interessa.

Há uma vontade de obrigar todas as mulheres grávidas a irem com suas gestações até o final. Quando a mulher dá a luz, o objetivo deles já foi atingido, e a partir daí não é problema deles.

Qual o sentido de ser pró-vida e não se importar com o que será da criança que nasceu? Uma criança que precisa de acesso à saúde, educação, cultura e perspectiva de vida. Na verdade, os que se dizem ‘pró-vida’ só apenas ‘pró-nascimento’.

Por que se chocam com um feto abortado e não se chocam ao ver uma criança vendendo picolé na rua enquanto outras estão em suas casas confortáveis jogando xbox?

Fica ainda pior quando essas pessoas pró-nascimento gourmetizam a pobreza dessas crianças, normatizando falando que “tá certo, tem que aprender a trabalhar desde cedo”, enquanto seus próprios filhos estão no ar-condicionado de seus quartos, tendo como maior atividade abrir a geladeira, pegar um danoninho e voltar a assistir aos desenhos da Tv a cabo.

Fetos não possuem sonhos. A comoção deveria ser pelas crianças pobres que têm os mesmos desejos que os filhos de pais ricos, mas não possuem perspectivas para realizá-los. Isso é digno de comoção.

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Posted by:HERNANDES

Formado em Engenharia Civil e graduando em Administração de Empresas, sou ótimo com números, mas também tenho afinidade com palavras.

3 respostas para ‘Quem é ‘pró-vida’ só se importa até a criança nascer

  1. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz categoricamente que a mãe tem o direito de dar pra adoção o filho que não puder criar. Minha família adotou meu irmão e ele agora vive muito bem. Talvez a demanda por aborto fosse menor se esse direito fosse divulgado. Você não é obrigada a criar um filho. Em adição, o acesso a meios de contracepção poderia ser facilitado. É crime se relacionar antes dos catorze anos (ou ato infracional, se ambos os sujeitos forem menores de catorze anos), então os adolescentes aventureiros não podem adquirir preservativos sem denunciarem a si mesmos. Ciente de sua incapacidade de eliminar esse fenômeno completamente, houve um tempo em que o estado distribuia camisinhas nas escolas públicas. Os adolescentes transam mesmo sem camisinha, então dar camisinha pra eles não seria um incentivo ao sexo, mas antes uma possibilidade de fazer sexo seguramente. No entanto, houve retaliação dos mais conservadores, que argumentaram que o estado estava incentivando os adolescentes a se relacionarem. Esses conservadores são do tipo que você mencionou: se preocupam com o feto, mas não com a criança depois que nasce. Com efeito, eles preferem uma menina grávida, talvez doente, possivelmente ainda no ensino fundamental ou médio do que uma menina protegida, sadia, sem filhos que lha distraiam dos estudos e mitiguem suas chances profissionais. Eles odeiam as duas crianças: mãe e filha.

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  2. Bela crítica! Eu também já vi essa gif, bem chocante… Pena que pessoas tenham essa coragem de tirar uma vida. Eles podem não sentir dor, nem nada, mas são VIDAS! 😉🕊

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