Estava chovendo, eu andava um pouco depressa na calçada quando nos cruzamos. Fui assaltado pela angústia e nostalgia de quem reconhece alguém que não o reconhece de volta. Você sequer olhou pra mim, assim como os apressados fazem com os panfletistas.

Nós nos conhecemos quando crianças. Estudamos o ensino fundamental e médio juntos. Você era gordinha e eu, só via orelhas. Trocamos risadas, compartilhamos lápis de cor e até fomos para a sala da diretora juntos. E aquela apresentação que fizemos para o dia das mães nunca sairá da minha memória.

Você foi meu primeiro grande amor. Nos trabalhos você sempre era a minha dupla. Adorava quando você discordava de mim em praticamente tudo. Falava mal do meu gosto para música e filmes, tudo em tom de brincadeira. Logo após um Atlético x Cruzeiro nós nos zoávamos pelo bate-papo do Facebook.

Nós amamos gatos, e eu ainda lembro o nome da sua: Kiara. Ela era preguiçosa e bem brava com desconhecidos, mas nosso convívio foi ótimo desde o começo, ao ponto de sair da sua casa com minha camiseta preta cheia de pelos.

Lembra quando você me ensinou a jogar video game? Confesso que não tenho afinidade alguma com o joystick, e numa eventual votação de paredão, eu com certeza votaria nele para a berlinda, mas eu me esforçava só porque você gostava.

Você foi a primeira menina que eu beijei, e foi justo no dia do beijo. Sofri muito quando te vi com outro cara. Aquela imagem que me fez transbordar em lágrimas durante dias, ao som de uma playlist que vai de Björk a Maysa.

Crescemos e seguimos nossos caminhos. Eu fui me tornar engenheiro e você, advogada. Quem diria. Você ostenta um namoro de anos e eu zerei o Tinder três vezes. Você é a favor do impeachment e eu sou contra o golpe. Rotas diferentes dignas de pessoas diferentes, ambas complexas.

Hoje não nos falamos. Sequer nos temos no Facebook. O meu celular ainda lembra a senha do seu Wi-Fi, mas sou capaz de apostar que você não lembra sequer da minha existência. Aquela música da Maria Rita se encaixa um pouco no nosso relacionamento sério que não existiu.

Tudo bem você não ter me cumprimentado na rua. Eu espero que você seja feliz, assim como todas as pessoas boas que passaram pela minha vida e marcaram. Que sigamos com nossos caminhos praticamente opostos e heterogêneos e que provavelmente nunca se encontrarão de novo.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

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