Há três anos minha mãe estava indo para a igreja. Era época de novena, e o compromisso era de manhã, bem cedo. Como a igreja fica perto de casa, ela foi sozinha e a pé. Por causa do horário, não havia ninguém nas ruas. Minha mãe andava normalmente quando alguém pega em seu ombro. Ela se vira assustada. Era um assalto.

O assaltante era jovem e portava uma faca na mão. Levou um celular e sessenta reais. Minha mãe ficou em choque, nunca tinha sido assaltada e pensou em reagir, mas, ainda bem, apenas entregou o que tinha.

Pálida, voltou para a casa chorando. Fomos à delegacia fazer o boletim de ocorrência. No mesmo dia, minha mãe foi chamada pela polícia para fazer o reconhecimento. Foi tenso.

Ele era um adolescente, magro, baixo e tinha um dente da frente quebrado. Sujo, usava roupas rasgadas. Claramente não teve oportunidade alguma na vida. Privado de saúde, educação, moradia, segurança e informação. Tinha apenas ele por ele no mundo. Minha mãe tinha sido vítima de uma vítima.

Vítima da desigualdade social, o que não justifica seu crime, mas explica. Em um mundo capitalista, é impossível viver sem dinheiro, portanto ele precisava conseguir algum. Dinheiro para coisas substanciais, como comida, e até fúteis, como um tênis. Afinal, quem não gosta de um tênis novo, uma roupa nova?

Penso no que eu tive e ele não teve. No que eu tenho e no que ele nunca terá. Por mais que seja um criminoso, ele ainda é um ser humano que, infelizmente, viveu o pior da vida, eu presumo.

Não há ninguém para ajudá-lo. Ele e tantos outros. Pessoas jogadas pelo país sem amparo algum de um Estado que parece que está de olhos vendados e de uma sociedade hipócrita e insensível que quer exterminar qualquer pessoa que cometa um crime, não se importando com o que a levou a cometer o delito.

Depois que ele pagar por qualquer punição que seja, o que virá depois ninguém sabe. Sem apoio, um lugar pra ficar, sem dinheiro. Como viver assim? Infelizmente, seu destino mais óbvio é voltar a assaltar.

Me sinto impotente vendo tantas crianças nascerem sem uma perspectiva de vida e não podendo fazer algo para mudar a vida delas de forma concreta. Eu sofro por elas. Sofro por saber que elas dificilmente se realizarão pessoalmente e profissionalmente.

Quem vai olhar por esses criminosos vítimas do nosso país?

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

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