Eu todo um banho com felicidade. Uso meu sabonete para pele oleosa na esperança que funcione só de passar uma única vez. Passo minha roupa, coisa que nunca faço, e me visto como se fosse encontrar a Rainha da Inglaterra. Depois penso que seria melhor se eu não desse tanto na cara, então troco de roupa com o intuito de parecer mais natural e sem expectativas. Passo pouco perfume, na nuca e no pulso. Apenas um evento comum e banal na minha vida, é o que eu quero fazer parecer.

Vou encontrá-lo ouvindo Los Hermanos, ou Banda do Mar e As Bahias e a Cozinha Mineira, ou qualquer som que me transcenda. Eu estou otimista e o fato de ter que ir de ônibus, fazendo uma pequena viagem, não me incomoda nem um pouco.

Olho para a janela e penso que a vida é boa. Me tranquilizo, há quanto tempo não sinto isso. A última vez foi assistindo a ‘Medianeras’ enquanto comia pipoca e bebia refrigerante no chão da sala lá de casa.

Chego de forma descompromissada. Nós nos cumprimentamos com beijo no rosto, e nisso dá pra sentir o seu cheiro de roupa limpa. Ele está vestindo uma camiseta preta de uma banda que eu não conheço, uma calça também preta e um tênis Adidas. Seu cabelo é liso, penteado de uma forma que dá a entender que não o penteou.

Começamos a conversar. Música, filmes e livros. Falamos sobre trabalho, nossas faculdades. O que esperamos do futuro. O que achamos da vida. Nossas famílias e amigos. Internet, comida e animais.

Será que agora vai? Já zerei o Tinder duas vezes, e os outros aplicativos só existem pessoas que usam nudes como foto de perfil. Eu gosto de um mistério natural, não algo que soa perigoso e fetichista.

Quero impressionar. Minto várias vezes. Concordo quando ele me pergunta se eu gosto dos Beatles, mesmo não tendo a mínima afinidade com os ingleses. Falo com um ritmo diferente do habitual. Faço gestos para parecer cool e diferente.

Cito Proust, Tolstoi e Kundera, livros que comecei a ler mas abandonei, pois não sou tão evoluído para usufruir de tal literatura. Tento parecer mais inteligente do que realmente sou. Tento parecer mais engraçado do que realmente sou. Tento parecer mais cool do que eu realmente nunca vou ser.

Eu não sou eu. Sou uma farsa sem escrúpulos quando quero conquistar. Talvez seja insegurança, medo da rejeição. Eu só quero ser amado. Mesmo que por alguns minutos. É melhor que nada.

Ele me acha incrível. Elogia minha camiseta da Björk e minha bolsa que comprei no site de produtos importados da China. Me chama de lindo e diz ter tesão em caras de cabeça raspada. Fala que sou instigante e diferente.

Isso me engrandece, aumenta minha autoestima. É bom ser desejado por alguém que você também deseja. É algo natural, alimenta a vaidade mas tranquiliza pela aceitação.

Já está tarde e preciso ir embora. A conversa foi boa. No caminho ele me abraça e me beija na boca. Eu deixo de ser uma farsa e volto a ser eu. Sem vaidades. Passam-se anos mas nós continuamos a nos beijar, pois é o mais delicado gesto de amor.

Volto com um sorriso de canto de boca para casa. A vida é bela. Amar é bom.

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Ilustração: Juliana Russo.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

One thought on “Eu não sou eu

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