Nunca gostei da Xuxa. Nasci em 94, acredito que não vivi a época de ouro da apresentadora, mas sei da sua influência na infância de diversas pessoas que nasceram na década de 80. Xou da Xuxa, Xuxa Star, Paradão da Xuxa, Programa Xuxa, Xuxa Park, Xuxa Hits, Planeta Xuxa. Foram vários trabalhos que tinham como semelhança uma questão a ser discutida: a padronização da beleza.

Mesmo você que, assim como eu, não viveu o auge da Xuxa, se lembra daquela Paquita negra? e da Paquita gordinha? E aquela do cabelo crespo? Você se lembra?

Claro que não. Você não se lembra porque nunca existiram Paquitas assim. Os requisitos para ser assistente de palco da tal Maria da Graça eram difíceis de atender num país como o Brasil: loira, magra, esguia, de olhos claros e cabelo liso.

Como pode uma racista ser ídola de crianças? Muitos vão dizer que Xuxa não é racista porque namorou Pelé, mas não ser racista não é dar pra um negão, nem comer uma mulata. Os senhores de escravos iam para a cama com as mulatas, e nem por isso eram menos escravocratas, nem racistas.

Meninas negras viam nas Paquitas a estética ideal, e como não se encaixavam em tal, se sentiam inferiores. As Paquitas representavam muita coisa, isso não é algo superficial. Xuxa criou uma geração de meninas negras de baixa autoestima.

Digo isso porque na minha adolescência e infância, eu não era considerado bonito pelas meninas que estudavam comigo. Eu não era fortinho, não tinha cabelinho lisinho, não era branco. Isso me doía muito. Dói quando você não se sente ideal, bom o suficiente.

Leva-se muito tempo para empoderar-se e reconhecer-se e se libertar de um padrão a ser seguido. Com o passar do tempo, depois de ler muito, assistir muito e ouvir muito, eu fui percebendo que as pessoas que mais me inspiravam não eram consideradas lindas. E apesar de não serem lindas, são interessantíssimas. E interessante eu posso ser.

Eu consegui me livrar da cartilha padronizada na qual eu só seria bom se atendesse àqueles requisitos, mas e as meninas, elas conseguiram? O que se vê é ainda uma forte baixa autoestima presente nas meninas negras, gordas, de cabelo crespo, pobres, etc. Tudo aquilo que não era visto no programa da Xuxa que não tinha só meninas brancas, loiras e de olhos claros como público alvo. A população preta contribuiu para o sucesso da apresentadora durante anos.

Xuxa não se acha racista, muito menos acha que faz parte da “sociedade” que ela diz que é racista. Tanto é que postou uma foto com uma camiseta escrito “Você não precisa ser negro para lutar contra o racismo”. Hipócrita.

Maria da Graça, o racismo é o X do seu nome.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

5 replies on “A beleza padronizada machuca

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