A possível ligação entre a epidemia de zika vírus e os casos de microcefalia faz com que o Brasil enfrente o assunto ‘aborto’ utilizando de outros argumentos exceto a moral e o religioso. Ainda com pouca informação do vírus e de suas consequências, surge a dúvida: a mulher pode interromper sua gestação ao ser infectada pelo zika?

O vírus atinge a todos, mas as principais vítimas são pessoas pobres, que moram em locais sem acesso aos direitos básicos. A região Nordeste do país é a que concentra o maior número de casos de microcefalia. Ou seja, o Estado é o maior culpado tanto pelo zika vírus quanto pelo surto de microcefalia e todas as suas ramificações que podem existir.

Dar acesso ao saneamento básico, à saúde, à educação, à moradia, à informação, é dever do Estado. Se uma mulher grávida se vê infectada pelo zika, por que ela é obrigada a prosseguir com a gestação sendo que a culpa por isso é toda dessa série de privações que ela sofre desde sempre por aquele que deveria promover o acesso aos mesmos?

Uma boa parte das pessoas que são contra o aborto, são homens. Homens estes que não têm útero, não sabem o que é estar grávida, nem o que é ter os filhos postos todos em sua responsabilidade. São estes mesmos homens que abandonam as mulheres quando descobrem que seu filho tem microcefalia.

A nós homens cabe escutar as mulheres e as apoiar. Não mais que isso. Por que a decisão de prosseguir ou interromper uma gravidez cabe a mulher, exclusivamente a ela.

Abortar é uma decisão difícil, onde a mulher que pode pagar pelo procedimento o faz tranquilamente e em consultórios seguros, e onde a mulher pobre corre o risco de ser presa e até morrer. E se ela corre esses riscos e mesmo assim opta por interromper sua gestação, é porque existem motivos reais para fazê-lo. Motivos estes que podem estar restritos a ela, e não às pessoas a sua volta que estão prontas para apedrejar. A decisão da mulher deve ser respeitada.

Da mesma forma, uma mulher grávida e infectada pelo zika tem o direito de prosseguir com sua gestação. Mas depois que a criança nascer e se tiver mesmo a microcefalia, a mulher precisará de amparo. Um país que não conseguiu erradicar um mosquito é capaz de dar suporte a uma mãe muitas vezes solteira e a uma criança deficiente? O fato é que teremos uma geração com microcefalia e o Estado não está preparado para tal.

Minha opinião, a sua, a do seu padre ou a do seu pastor de nada valem para a mulher que está grávida. Se ela quiser abortar, ela vai abortar. Ou vai morrer tentando. O aborto é seguro para quem pode por ele pagar e mortífero para quem não pode. Resta a nós apoiar a decisão das mulheres. E mais nada.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

3 replies on “Zika e microcefalia trazem o aborto ao debate

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