“Semana passada eu vivi uma situação. A Alcione me convidou para estar no aniversário dela, lá na quadra da Mangueira… Fiquei lá por uma hora mais ou menos… Mas o que me chamou a atenção foi um travesti que estava lá. Posso confessar uma coisa para vocês? Quando eu vi, ele estava olhando para mim (pausa). E olha que eu não sei ficar sem graça… Mas sabe o que me ocorreu? Vou confessar publicamente a minha hipocrisia: ‘Meu Deus do céu, se esse rapaz pedir para tirar uma foto comigo? Como que eu vou reagir?’(pausa). Independente de qualquer julgamento, estou confessando a hipocrisia do meu coração naquela hora. Muitas pessoas começaram a se encorajar para tirar foto comigo. E ele (o travesti) lá do fundo olhando. Quando, de repente, eu só vi a sombra dele na minha direção, e o meu preconceito, o medo de me expor, tudo vindo à tona. Que coisa horrorosa isso em nós… Como se eu fosse melhor. Isso é mesquinho, é vergonhoso o que eu estou dizendo pra vocês”, desabafou. “Aí ele veio, com um vestido longo e falou pra mim: ‘O senhor costuma tirar fotos com pecadoras?’. E eu percebi que tinha uma ironia ali. E eu respondi: mas é claro! E abracei ele e tiramos a foto. Antes de sair, ele disse: ‘eu não acredito que o senhor permitiu’. E os olhos dele estavam emocionados. Assim que ele saiu, Maria Helena, a irmã da Alcione, me contou a história. Ela disse que ele mora na Lapa e criou um grupo que alimenta e recolhe todos os miseráveis daquela região. Quando ela me contou aquela história, eu comecei a unir as coisas dentro de mim. Eu não entro no mérito da questão da vida que ele leva, vamos deixar que Deus faça isso. Não sou síndico da Eternidade. Agora, que é um tapa na cara da gente, é?”, completou.

Isso foi o que o padre Fábio de Melo, durante uma pregação na Canção Nova, em São Paulo, contou sobre seu encontro com a travesti Luana Muniz na quadra da Mangueira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

De fato, ter um líder religioso posando com uma travesti é um tanto esperançoso, mas vejamos o que aconteceu de verdade.

Fábio de Melo é transfóbico, ele mesmo falou sobre seu preconceito ao ver Luana Muniz. O que mais acontece com os LGBT’s é ter sua identidade de gênero ou condição sexual associada ao caráter. As travestis ainda possuem uma imagem de pessoa da noite, muito provavelmente numa esquina esperando algum homem parar o carro e contratar o programa. O padre só enxergou o lado humano de Luana após conhecer sua história, pois a dita-cuja realiza trabalhos sociais. Do contrário, não sabemos qual seria o pronunciamento do padre.

Depois da publicação da foto, apareceram diversos textos na Internet nas quais soam que o padre fez uma grande caridade ao tirar uma foto com Luana. Inclusive, o nome dela não é citado nos títulos e é tratada apenas como “o travesti”. Só não chamam de “traveco”, porque a linguagem do site é a formal.

E será que o padre Fábio de Melo, sabido, letrado, não sabe nada sobre ideologia de gênero? será que ele não consegue imaginar o quanto é ruim para uma travesti ser tratada no masculino? será que não consegue sequer presumir de uma forma rápida?

O que custa tratar uma travesti no feminino?

No final das contas, travestis continuam com uma imagem demonizadas de seres que são a escória da sociedade, dignas apenas de serem protagonistas de algumas piadas contadas no bar, e, se por acaso um homem tirar uma foto com elas, deveriam ficar agradecidas por esse ato, já que não são dignas sequer de um cumprimento na rua.

Em um mundo ideal, pessoas seriam respeitadas sem levar em consideração cor da pele, identidade de gênero ou condição sexual. E Luana não é um rapaz, padre Fábio. Ela é uma mulher.

*texto publicado por um LGBT cisgênero que não quer protagonizar a luta do Transfeminismo, e sim se indigna com tanta ignorância.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

20 replies on “Padre Fábio de Melo e a travesti Luana Muniz

  1. Vc leu a matéria ? Eu li e naum e nada disso … Ele mesmo fala q ele teve sim um preconceito mais pelo que as pessoas diriam dps viu que estava errado
    o próprio texto diz isso ele mesmo está se julgando dizendo q teve uma atitude preconceituosa e errada portanto meu caro vc esta só querendo CAUSAR

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  2. Cara, deixa de ser babaca. O padre é humano, tem suas falhas e limitações. Deu um primeiro passo pra vencer o preconceito e você o “condena” por isso? Você é perfeito? Já errou? Já reconheceu seus erros? Pelo visto aqui, só aceita elogios, né?

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      1. Sinto mto mas isso é ridiculo pq exigir respeito sim mas tratar ela no feminino isso é ridiculo a propria Nanny People achava isso errado ela dizia homem é homem mulher mulher trans é trans e por assim vai não existe mulher com penis e que ejacula

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  3. Mais uma vez aquele texto vitimista…
    Alguém lembra do “Profissão Repórter”, onde o mesmo travesti cobre um “cliente” de porrada, e grita a conhecida frase “Tá achando que travesti é bagunça?!”
    Menos vitimismo, menos acusações…

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    1. É muito fácil falar que é vitimismo quando quem sofre não é você. Isso é o que mais acontece. Se você é hetero, nunca saberá o que um LGBT passa, mas você pode presumir e, com isso, fazer com que o mundo seja melhor. Outra coisa é não comparar a reação do oprimido com a ação do opressor. Abraços.

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  4. Eu acho que a mensagem do padre não foi captada direito.
    Não sou religioso, então não defendo por conveniência. Ele quis mostrar em sua pregação, arrependimento e aprendizado, ao reconhecer o erro de ter preconceito com os travestis/trans etc.
    Pense bem: os jornais mostravam como se ele estivesse fazendo uma caridade, como você mesmo disse. Se ele estivesse calado, ninguém saberia tudo que se passou por trás. Pensariam: “olha que padre legal, ele não tem preconceito”. Agradaria a gregos e troianos.
    Mas não, ele foi homem e contou toda a verdade, que ele é uma pessoa comum, e que mesmo sendo padre, ele tem seus preconceitos. E mostrou que se arrependeu e aprendeu com isso, a não julgar as pessoas pela aparência (ser gay/travesti/trans não é escolha, eles têm necessidade disso).

    E sobre a pessoa ser letrada não tem nada a ver com tratar os travestis do modo que eles merecem (como chamar no feminino etc.).
    Primeiro, a educação nas escolas E EM CASA não fazem seu papel. Ainda é polêmico falar para uma criança/adolescente em desenvolvimento esse assunto, quando na verdade deveria ser normal. Eu já vi um pai enrolando para explicar para o filho (de uns 9 anos) “o que era aquela mulher” no elevador.
    Eu mesmo nunca tive dessa educação, e estudei em ótimas escolas, em uma federal. Nunca tive dessa educação em casa. NUNCA.
    No meu primeiro ano do ensino médio, tive um professor assumidamente gay. Ele não escondia isso. A minha primeira reação quando ele abriu a boca para falar foi rir. Assim como outros alunos. Ele foi um dos melhores professores que tive na minha vida.
    Mais tarde, estaiava na prefeitura da minha cidade. Em um evento, tinha travestis. Não soube como lidar. Ela perguntou se podia assinar com o nome feminino. A lei era nova ainda, então eu falei que era melhor assinar com o nome de registro. Ela disse que estava na lei.
    Antes dela, outra travesti assinou com o nome masculino. Eu ia dizer isso, mas não sabia se falava “outra” ou “outro”. Então soltei um “assinaram aí com o nome de registro mesmo”. Eu lembro que ela ficou irritada, mas meu chefe chegou e apaziguou.
    Com um pouco de pesquisa, eu vi que realmente é ofensivo às travestis serem chamados de homens.
    Olhe no dicionário, a palavra travesti está no masculino.

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  5. Muito obrigado pelo texto. Sou trans e toda vez que sou tratada no masculino, me sinto um nada, porque todos sabem o jeito que gosto de ser tratada – no feminino -, mas mesmo assim não o fazem. É como se eu não fosse alguém digno de respeito.

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