Quando eu era neném e tinha 16 anos a Internet era um lugar mágico. Ainda é, mas com o passar do tempo você vai tendo menos tempo para usufruir de sua complexidade e passa a usá-la na forma de rotina: você acorda, lê seus e-mails, entra em algum site de notícias para se informar, dá uma checada em suas redes sociais. Você provavelmente repete essa sequência todos os dias em um número elevado de vezes.

Antes da chegada dos aplicativos de celular e com o MSN ficando cada vez mais em desuso, o Facebook se tornou a melhor forma de se comunicar com estranhos não tão desconhecidos. Falo isso porque um estranho do bate-papo Uol é diferente de um estranho do Facebook, porque na rede social a pessoa precisa ter seu pedido de amizade aceito para se iniciar uma conversa, e quem é que vai fazer amizade com um perfil sem fotos e informações?

Eu recebia vários pedidos de amizade porque aparentemente naquela época era cool ter milhares de amigos. Hoje eu tenho uns 400 amigos e acho muita coisa, mas se resumem a pessoas com quem eu já estudei, professores que criei amizade, vários conhecidos de vista, alguns familiares e meus amigos mesmo. Ou seja, não tem como diminuir esse número que tende a aumentar. Quando eu entro no perfil de alguém e me deparo com sua lista de amigos com o contador no 3.541 me dá tanta preguiça.

Num belo domingo, bem azedo para justificar o nome deste blog, um tal de Gustavo me enviou uma solicitação de amizade. Achei sua foto de um bom gosto ímpar e seu perfil mais que interessante, com suas bandas e filmes bem instigantes. Não tínhamos sequer um amigo em comum e me perguntei como aquele cara de 27 anos, de cabeça raspada, com um estilo peculiar e morando a mais de 70 quilômetros de mim me encontrou naquele site enorme.

Aceitei sua amizade e rapidamente ele me mandou um ‘oi’ e agradeceu pela aceitação no inbox. Começamos a conversar e a primeira coisa que lhe perguntei foi, justamente, como me encontrou no Facebook. “Vi um comentário seu na página de uma banda que eu gosto, não sei por quê mas seu perfil me chamou atenção e te adicionei” ele disse.

Gustavo trabalhava em um banco privado, morava sozinho e via sua família que morava em outra cidade umas duas vezes por mês. Era gay e se sentia sozinho. Quando não estava trabalhando Gustavo passava o tempo como eu: lendo, ouvindo música ou assistindo a algum filme. Na época eu ainda não conhecia o mundo das séries, mas ele ia além e assistia a não só uma simples série, era uma série francesa que eu realmente não consegui passar do primeiro episódio mas que achava mais do que incrível esse gosto bem singular. Não me lembro de seu signo, mas isso é uma coisa que eu gostaria de saber.

Mesmo eu sendo 11 anos mais novo que ele, conversávamos de igual para igual. Estava em férias escolares, portanto nossa conversa tinha hora marcada todos os dias de tardinha. Ele me contava da sua vida de uma forma tão livre e detalhada que cheguei a amar sua mãe e a odiar seu tio homofóbico, tudo pelas suas palavras que pareciam um livro novo interessantíssimo que eu devorava. Até uma ida ao supermercado era um movimento sublime pelas palavras que usava. Em suma, a gente se entendia.

Não tínhamos os mesmos gostos, exceto uma coisa ou outra, mas falávamos a mesma língua. Ele entendia meu humor e eu entendia o dele. Era uma conversa abrangente, daquelas que as pessoas estão empenhadas em extrair o máximo possível. Não existia respostas curtas mostrando desinteresse. Era tudo franco de duas pessoas que gostavam da companhia, mesmo que pelo computador, uma da outra.

Com a volta às aulas e eu estudando de manhã e à tarde, começamos a usar mais o celular para nos falar. Éramos amigos no Facebook, nos seguíamos no Twitter e agora trocávamos SMS. Eu o adorava e ria sozinho das suas mensagens, não me importando de parecer um idiota.

Demorou um certo tempo até surgir a ideia de nos vermos. Hoje eu penso que ele esperou até que eu não me assustasse com seu pedido de me encontrar pessoalmente. Eu aceitei, afinal, éramos amigos há tempos, deveríamos nos ver algum dia e esse dia poderia ser agora.

Eu estudava no Senai de manhã e marcamos de nos encontrar logo após a aula. O Senai ficava no alto de um morro e ele insistiu em me pegar na porta da escola para irmos almoçar e depois darmos uma volta no parque.

Estava bem ansioso, iria encontrar alguém que eu gostava. Quando sai da escola havia alguns carros estacionados na calçada e não sabia qual era o dele, até que ele colocou a cabeça pra fora da janela e gritou meu nome.

Entrei no carro e fiquei sem reação com aquilo. Ele era exatamente igual as fotos e tinha um sorriso bem espontâneo. A única coisa que notei é que ele era mais alto e forte pessoalmente, mas a pele branca, a cabeça raspada, o nariz pontudo e os olhos castanho claro eram a mesma coisa.

Conversamos sobre coisas aleatórias, sobre como estávamos felizes em nos encontrar e o quanto ele parecia pedófilo tendo 27 anos e de romancezinho com um garoto de 16.

Foi ótimo, e depois daquele dia começamos a conversar muito mais, o que eu achava impossível. O assunto nunca se repetia, o que me fazia ficar horas em sua companhia.

Aquilo era incrível, ter alguém pra conversar sobre o que me deixava inquieta, indiferente e eufórico. Gustavo era um amigão e eu não me cansava dele, até que ele um dia desapareceu.

Sua conta no Twitter foi excluída, ele nunca ficava online e nunca postava nada. Não atendia as ligações e não respondia aos SMS.

Eu não entendia o que tinha acontecido. Talvez eu tenha dito algo que o magoou, talvez ele simplesmente se cansou de mim ou, no pior das hipóteses, morreu. De quê, não sei, mas depois de um tempo, essa foi a justificativa mais cabível para a situação.

Fiquei de luto por meses. Qualquer coisa que me acontecia eu lembrava do Gustavo. Tão estranho, nos vimos uma vez apenas e eu criei um vínculo com ele. Que doidera. Alguém insensível não conseguiria entender o que é gostar de uma pessoa de graça.

Acho que foi minha primeira perda que senti de verdade. Nunca passou pela minha cabeça que aquela amizade virtual poderia acabar um dia de uma forma tão inexplicável. Como não tinha contato com ninguém do seu convívio, me senti num beco sem saída obrigado a aceitar seu sumiço repentino.

Ninguém tinha me dito isso, mas amizades virtuais também têm fim. Uma pena.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

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