Acabei de fazer um teste genial no Buzzfeed chamado “Descubra se você é privilegiado”. Já abri o site sabendo que, sim, sou privilegiado em vários aspectos, mas o resultado até me surpreendeu. Marquei 10 das 38 situações e recebi um “pouco privilegiado”. Gostaria que todos fizessem o teste e conseguisse enxergar o tamanho da desigualdade que existe no Brasil.

O privilégio no nosso país é algo tão recorrente que as pessoas não se chocam. A maioria acha normal numa mesma rua morar uma família rica, com casa própria, filho em escola particular , que pode viajar nas férias, e uma família morar de aluguel com o orçamento dando no máximo para sobreviver. É como se fosse um sistema de castas onde um indivíduo nasce para ser rico e o outro para ser pobre.

Um grande erro que se ocorre é se achar merecedor. Quantas vezes não ouvimos de alguém que conquistou alguma coisa que “mas eu estudei, eu trabalhei muito, eu dei duro”. Estudar e trabalhar são resultados de oportunidades e nesse caso o indivíduo aproveitou a oportunidade que lhe foi dada. As pessoas não se dão conta do quanto são privilegiadas em coisas simples do cotidiano. A rede de contatos é um enorme privilégio, por exemplo. Muitas vezes você indica alguém, um irmão, amigo, primo, pra algum trabalho. Fora quando o indicado é você.

Já ouvi de uma mulher, que hoje se encontra muito bem financeiramente, que “mas eu fui para os Estados Unidos e trabalhei como faxineira, manicure, garçonete”. Privilégio. Uma pessoa que tem oportunidade de ir para o exterior tentar a sorte, num país como o nosso, é privilegiada. O litoral brasileiro tem 9000 km de extensão e mesmo assim milhões nunca foram à praia.

Nascer branco é muito facilitador. Não há racismo, não é xingado na escola por ter “cabelo ruim”, várias vezes relacionado ao “bombril”, não é acusado por roubo injustamente. Não ser parado em blitz só por ser negro, não perder uma vaga de emprego só pela coloração da pele.

Poder andar de mãos dadas na rua com seu namorado/namorada é infelizmente um dos maiores privilégios do mundo. Só quem já passou pela situação de ter que esconder sua condição sexual sabe disso. Apresentar o namorado para a família como “amigo” dói.

Em um país onde a presidenta precisa proibir os deputados de andarem de primeira classe com dinheiro público, não é de se admirar que haja tanta dificuldade de se ver privilegiado. Há também dificuldade em se colocar no lugar do outro. Receber 134 reais de Bolsa Família não é privilégio pra vagabundo. Privilégio é não ter que precisar dessa ajuda.

Cotas raciais não são privilégio para quem não se esforça. O Brasil foi construído em cima do racismo e, depois da abolição da escravatura, os negros não foram ressarcidos e os agressores não foram punidos. Riqueza se herda e pobreza também. Privilégio é não ter que precisar de cotas para conseguir uma vaga na faculdade.

Se reconhecer um privilegiado não é para ficar se sentindo mal nem se sentir envergonhado. É para desenvolver empatia por aqueles que não têm o mesmo que você.

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Posted by:HERNANDES

Eu sou um protesto contra a insensibilidade.

16 replies on “País dos privilégios

  1. Sistemas comuns não são autossustentáveis…quem é monovalente usufrui de privilégios…qualquer comunidade humana possui seus picos e depressões de referências…vindos adivinha de onde… da condição inata individual de mostrar-se coerente aos demais pela persuasão ou pela força.

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  2. Concordo que é um privilégio ter a oportunidade de estudar. Aliás, ter comida saudável na mesa para poder se concentrar nos estudo é um privilégio também. Mas acho que seu texto ignora o fato que mesmo na classe média baixa no Brasil as pessoas têm acesso à escola e com bons pais necessidades básicas atentdidas. Mas alguns ficam em casa estudando e outros vão às baladas. E depois os que não se esforçaram colocam a etiqueta de “privilegiadas” nas pessoas que se esforçaram. Eu sei quantas vezes fiquei estudando enquanto meus amigos divertiam-se. Uma pessoa que conheço perdeu pais nova, morando em uma favela, ela foi de casa em casa pedir ajuda para continuar na escola e terminou faculdade, é uma guerreira. Hoje é considerada privilegiada. Eu acho que as oportunidades devem ser exatamente as mesmas (saúde, alimentação e educação para todos, de boa qualidade). Mas o resto é por meritocracia. Funciona nos países escandinavos, funcionaria em qualquer lugar do mundo.

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