Texto traduzido do Tumblr (original aqui)

O que é não é apropriação cultural?

  • Experimentar/comer/cozinhar pratos de outras culturas.
  • Escutar músicas de outras cultura
  • Assistir filmes de/sobre outras culturas
  • Ler livros que fazem parte/falam de outras culturas.
  • Apreciar a arte de outra cultura
  • Usar roupas de outras culturas SE não existir por trás dessas um significado especial e específico, ou em um meio onde tal cultura é a que prevalece e SE as pessoas dessa cultura não se sentirem ofendidas com isso e/ou se for necessário para se adaptar e não ser taxado como alguém “estranho” (ex. se você estiver de visita ao Paquistão, você pode ter de vestir um shalwar kameez para não se parecer com um turista ocidental. Ou se você for visitar um determinado templo ou um local religioso, você talvez precise/queira vestir-se de formas específicas para não ofender costumes do local. Ou se você for convidado para um casamento/uma festa, pode ser que eles lhe permitam vestir-se com ornamentos/vestimentas da cultura deles para participar das festividades, etc.)
  • Participar de danças/tradições culturais “físicas” em determinados contextos (ex. ter aulas de haqs al sharqi ou ir para um casamento indiano e tentar dançar com eles, claro, sempre se certificando de não ofender ninguém).

O que é apropriação cultural?

  • Usar vestimentas específicas que talvez—bem, que provavelmente carregam significados mais complexos e profundos do que simplesmente “ser uma vestimenta” ou “ser uma fantasia”. Principalmente (mas não somente) se você tentar pegar essas roupas e usá-las fora de contexto (ex. usá-las como fantasias de Halloween ou Carnaval).
  • Usar certos ornamentos ou vestimentas de outras culturas com o objetivo de torná-los moda ou trendy, ou por alguém tê-los tornado moda ou trendy.
  • Tentar imitar a “beleza natural”; o que é considerado como belo por um grupo de pessoas E carrega significado cultural, bem como algumas maquiagems e “marcas” que carregam supracitado significado (ex. dreads, bindis, mehndi/henna, etc.)
  • Pegar rituais, tradições antigas e danças típicas, todas com significado cultural, e transformá-las no lixo barato e nojento do seu dia-a-dia só para que você tenha sua diversão. Qualquer tentativa de modificar tais tradições, torná-las “moda” ou “vendáveis” para os padrões branco-ocidentais, bem como se se apropriar delas se pessoas dessas culturas antes declararam que isso seria ofensivo, é considerada apropriação cultural (exemplo: fumar sheesha, fazer o twerking)
  • Pegar ideias e tradições religiosas/espirituais de uma cultura e começar a “seguí-las” para se sentir trendy, especial ou diferente.
  • Tentar se dizer/agir como se você fosse expert na culinária, música ou arte de uma cultura, chegando ao absurdo de falar e/ou acreditar que sabe ou pode fazer isso tudo melhor do que as pessoas que FAZEM PARTE de tal cultura.
  • Basicamente tentar se apropriar de uma cultura, de sua aparência, de suas vestimentas, amuletos, do que esta considera belo, de suas tradições, rituais, danças e costumes, da sua identidade em geral e transformá-los em simples lixo vendável branco-ocidental, ou simplesmente pegá-las e as usar da maneira que preferir e não da maneira que devem ser usadas, ou usá-las mesmo após pessoas que fazem dessa cultura terem lhe dito que é ofensido e lhe pedido para parar.

E por que isso é errado? 

Porque na nossa sociedade, pessoas brancas (cultural ou fisicamente, mas isso é outra discussão) podem se utilizar de elementos ou identidades de outras culturas e isso será visto como “fofo”, “indie”, “boêmio”, “trendy”, e “exótico.” MAS, no momento em que uma pessoa não branca que é parte daquela cultura resolve exigir para si o direito de usar vestimentas de sua cultura, de falar sua língua, de praticar rituais, danças ou costumes da sua tradição cultura, esta pessoa será discriminada, será tratada como “ghetto”, “favelada”… Ela terá de aguentar piadinhas (estereotipadas), terá de aguentar críticas ferrenhas por ser vista como “estranha”, poderá vir a sofrer xenofobia, vai ser motivo de riso, poderá sofrer agressões e, dependendo do lugar e de com quem ela esbarre, poderá ser até morta. Pessoas não-brancas que expresam suas culturas publicamente sabem que correm sérios riscos de sofrer agressões, sejam elas físicas, psicológicas ou emocionais. Crianças apontarão em sua direção, adultos a encararam; alguns curiosos, e outros como se elas tivessem doenças infecciosas.

E se uma pessoa branca (ou uma pessoa não-branca que não faça parte daquela cultura; não é só porque você é, por exemplo, asiático que você tem o direito de se apropriar da cultura negra, indígena, latina e por ai vai – o racismo e o etnocentrismo acontecem com todas as pessoas não-brancas, é verdade, mas de maneiras diferentes – mas isso também não é discussão para o momento) resolver vestir, por exemplo, um shalwar kameez, as pessoas provavelmente irão simplesmente se referir a ela como fofa, diferente ou exótica.

Quer dizer: sério que vocês não vêem um problema? Eu vejo.

Quer provas? Quando Selena Gomez ou Katy Perry usaram outras culturas como fantasias em seus videoclips ou algo assim, elas foram consideradas criativas e divertidas. Mas quando uma mulher americana com descendência indiana, Nina Davuluri, com pele morena, cabelos escuros e nariz brotuberante, venceu e se tornou Miss USA, ela acabou por sofrer um imenso backlash racista e as pessoas diziam, “Nós não nos parecemos com isso, nós não precisamos de uma devoradora de curry aqui, saia do nosso país!” Então eu devo entender que a cultura indiana só é aceitável se Selena Gomez estiver se apropriando dela, certo? Mas nunca se uma verdadeira mulher indiana estiver a expressando.

Outro exemplo: pessoas brancas com dreads são vistas como “soft grunge” e “hippie”, mas pessoas negras com dreads são feitas pouco e taxadas como sujas e preguiçosas por tê-los, mesmo que elas saibam muito melhor como cuidar de seus dreads e que eles carreguem significado mais completo para elas do que simplesmente “estilo de pentiado”. Por causa desses as negarão empregos, as evitarão, rirão delas.

Respeite o fato de que somos todos diferentes. Você não precisa se cegar para a existência de outras culturas, nos declarar “todos iguais pois todos sangramos vermelho”, até porque isso é pura ignorância.

Tentar ignorar a existência de outras culturas é apagar a identidade das pessoas que dessas culturas fazem parte. Você pose apreciar/gostar/admirar outras culturas sem tentar roubá-las, usá-las, usá-las como fantasias ou torná-las vendáveis para A SUA GENTE. Se você não nasceu – ou, vamos ser justos, se pelo menos não foi criado como parte daquela cultura (existem, afinal, várias crianças nascidas em um país, adotadas e criadas em outro) -, CONHEÇA E RESPEITE SEUS LIMITES!

E SIM, sempre existirão aquelas pessoas que vão sair com um “Mas meu amigo chinês não liga se eu fizer____!” e “Eu sou mexicano e não ligo se as pessoas ____,” mas lembre-se sempre que uma ou uma dúzia de pessoas não podem falar por todas as pessoas de uma cultura, e não é somente porque ELES não se importam que outras pessoas que fazem parte dessas culturas não se importarão. E se elas se importarem, a denúncia delas é válida e jamais deve ser ignorada!

Várias pessoas não brancas não ameaçadas/agredidas/fetichizadas/mortas por causa de suas próprias culturas, ENQUANTO pessoas que não são daquela cultura são taxadas de “espírito livre”, “boêmias”, “singulares” e “trendy” por imitarem a MESMA cultura—então sim, as pessoas que se opuserem à apropriação cultural fazem isso baseadas em microagressões e preconceitos que elas provavelmente vieram sofrendo durante toda sua vida, e não é direito seu tentar convencê-las de que elas não tem o direito de falar por suas próprias culturas ou que as agressões que elas sofreram não significam ou não deveriam significar nada.

Pense sobre isso. Algumas mulheres não se importam com o sexismo que sofrem, algumas pessoas não-brancas não se importam com piadas racistas, alguns judeus não se importam com piadas sobre o holocausto. E seu amigo pode ser uma dessas pessoas. Mas isso de repente lhe autoriza a ser babaca, imaturo e ignorante com as pessoas que se importam, que se sentem ofendidas a verem suas identidades serem roubadas, apropriadas, deturpadas?

Deixem de ser idiotas. Estamos em 2014, a internet lhe dá informações sobre praticamente tudo o que você quiser em poucos segundos, NÃO HÁ DESCULPA PARA CONTINUAR SENDO OU AGINDO COMO UM IGNORANTE.

E se um dia vocês precisarem explicar para alguém o que é apropriação cultural, mostre a eles esse post. É um bom começo e eu acho que os deixa nos trilhos para pelo menos entender num nível básico e superficial o que é apropriação cultural e o que não é.

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Posted by:Hernandes Matias Junior

Eu acordo cedo nos feriados. O vício da rotina não me permite acordar depois das nove, ao mesmo tempo que a TV me bombardeia sem tréguas com a programação da manhã e me causa sonolência, mas não tédio. Tédio é sentimento de pessoas que não têm inspiração, e isso é o que não me falta.

5 replies on “O que é e o que não é apropriação cultural

  1. O que é apropriação cultural? É um termo utilizado pelos vitimistas que gostam de fazer mimimi, para praticar racismo, mas por irem em uma direção onde se fazem de coitados não são acusados de nada, e mesmo que sejam podem sempre usar o bordão “Aim, racismo inverso não existe”. Mas vejam as seguintes situações, sou branco e digo: ” Aí negão, para de usar isso que é coisa de branco” já sabem né? Vai dar merda pro meu lado, agora eu sou negro e falo: “Oh palmito, tira isso aí que é coisa de negro”, serei aplaudido por um bando de acéfalos e a ainda consigo fazer a galera espinafra o cara. Ou seja, apropriação cultural é a minha rola, se eu quiser usar alguma vestimenta ou adereço eu vou usar, não importa a qual cultura ela pertença.

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  2. Ficou uma dúvida, e se eu for branca com ligação (sanguínea, por exemplo) com culturas afros, indígenas, indianas… ainda sim é apropriação cultural? E se eu for não-branca mas minha ancestralidade é européia, e uso (roupas,…) de culturas não-europeias é apropriação cultural? Resumindo a apropriação cultural é definida pelas minhas características físicas ou pela minha herança genética cultural?

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  3. Gostei muito do seu texto. Infelizmente, no nosso país onde a maioria é negra/parda, o preconceito é algo tão comum. Mas, um dia venceremos essa batalha (nao custa sonhar, né). Abraços e sucesso pra vc! 🙋

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